A eleição de 4 de outubro terminou, mas a política pernambucana está longe de entrar em período de calmaria. Pelo contrário. Nos bastidores, uma nova disputa já começou e ela passa diretamente pela Assembleia Legislativa de Pernambuco. Raquel Lyra saiu das urnas fortalecida. Reeleita no primeiro turno com 53,27% dos votos válidos, a governadora terá, a partir de 2027, uma nova oportunidade para construir uma relação diferente com a Alepe. E é justamente aí que está o ponto mais quente da política estadual.
A nova Assembleia terá 49 deputados. PSD e PSB serão as maiores bancadas, com nove parlamentares cada. O PP terá sete, o Podemos seis e o PT cinco. O restante das cadeiras será distribuído entre PL, PV, MDB, União, Republicanos, PCdoB, Avante e Novo. No papel, portanto, Raquel não tem apenas uma vitória eleitoral. Tem também uma posição muito mais confortável para negociar dentro da Casa.
A batalha pela presidência
O primeiro grande teste será a eleição da Mesa Diretora. Com a saída de Álvaro Porto da disputa pela presidência e uma correlação de forças considerada mais favorável ao Palácio do Campo das Princesas, a escolha do próximo presidente da Alepe ganhou status de verdadeira prévia do poder em Pernambuco.
E aqui está a pergunta que começa a circular nos corredores da política: Raquel Lyra vai deixar a Alepe escolher livremente seu presidente ou vai trabalhar para construir uma Mesa alinhada ao seu segundo governo?
Não é uma questão meramente administrativa.
Quem controla a presidência da Assembleia controla uma parcela importante da agenda política do Estado. Define prioridades, conduz o funcionamento da Casa e exerce enorme influência sobre a relação entre Legislativo e Executivo.
Depois de quatro anos marcados por embates entre o Palácio e setores da Alepe, uma mudança na correlação de forças pode alterar completamente esse relacionamento. A própria governadora já deu sinais claros de que pretende fazer diferente.
Recentemente, Raquel criticou a atuação da Assembleia durante seu primeiro mandato e afirmou que, em determinadas votações, prevaleceu uma lógica de “quanto pior, melhor”. Ao mesmo tempo, prometeu espaço no segundo governo para os partidos que ajudaram sua reeleição. Ou seja: a guerra eleitoral terminou, mas começou a guerra pela governabilidade.
O outro lado dessa história é João Campos.
Derrotado por Raquel ainda no primeiro turno, o PSB conseguiu preservar uma bancada expressiva na Alepe e empatou com o PSD em número de deputados eleitos: nove cadeiras para cada legenda. Isso significa que João Campos não desapareceu do jogo político. Muito pelo contrário.
A nova Alepe será o principal palco para medir a capacidade do PSB de continuar exercendo oposição e, principalmente, para saber se João conseguirá manter uma frente política organizada contra o segundo governo Raquel.
Mas existe uma questão ainda maior:
João Campos será apenas o líder da oposição ou começará, desde já, a preparar seu próximo movimento político? Porque, em Pernambuco, política raramente termina quando termina uma eleição. 2030 já começou?
Essa talvez seja a pergunta mais incômoda.
Raquel Lyra conseguiu aquilo que parecia mais difícil: derrotou João Campos no primeiro turno e conquistou mais quatro anos no Palácio do Campo das Princesas. Agora terá tempo, estrutura política e uma nova composição da Alepe para consolidar seu projeto.
João Campos, por sua vez, terá quatro anos para reorganizar o PSB, preservar sua influência e decidir se pretende voltar à disputa pelo Governo de Pernambuco ou mirar outro projeto nacional. Por isso, a eleição da Mesa Diretora da Alepe não deve ser vista apenas como uma disputa interna entre deputados.
Ela pode ser o primeiro capítulo da eleição de 2030.
Quem comandar a Assembleia terá papel importante na construção das alianças que estarão em campo nos próximos anos. E é justamente por isso que a pergunta que fica para os próximos meses é simples:
Raquel Lyra vai governar com uma Alepe independente ou vai construir uma maioria política capaz de transformar a Assembleia em uma extensão de seu projeto de governo? A resposta começará a aparecer na escolha da nova Mesa Diretora.
E, dependendo de quem sentar naquela cadeira de presidente, Pernambuco poderá descobrir muito antes de 2030 quem estará realmente preparando o próximo capítulo da política estadual.
A Conexão Brasília Pernambuco quer saber: Mesmo perdendo nas urnas, João Campos tem condições de cravar uma vitória da oposição para presidência da Assembleia Legislativa?
Quarta-feira, 20 de outubro de 2026
Por Sérgio Ramos/Locutor e Blogueiro
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